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Direito Constitucional4 min de leitura

72% acham a imagem de Moraes abalada. Isso não prova nada, e ao mesmo tempo prova o essencial

Diego Ribeiro de SouzaDiego Ribeiro de SouzaAdvogado · OAB/MG 211.002
72% acham a imagem de Moraes abalada. Isso não prova nada, e ao mesmo tempo prova o essencial

O instituto Palver entrevistou 5 mil pessoas entre 20 e 23 de setembro de 2026 (margem de erro de 3 pontos percentuais, nível de confiança de 95%, pesquisa registrada no TSE sob o código BR-09587/2026) e apurou que 72% consideram a imagem do ministro Alexandre de Moraes a mais afetada, entre as autoridades envolvidas, pela crise do Banco Master. Dias antes, a pesquisa Atlas/Estadão já tinha medido outra face do mesmo fenômeno: entre 17 e 21 de setembro, com 1.852 entrevistados, apurou que 85,1% dos brasileiros acreditam que ministros do STF estão diretamente envolvidos no caso, salto real em relação aos 66,1% de março. No mesmo levantamento, 58% dizem desconfiar da Corte como instituição, número que sobe para 61% quando a pergunta é sobre o trabalho dos próprios ministros. O reflexo mais comum diante de números desses é usá-los como munição definitiva, seja para condenar, seja para descartar por completo. Os dois reflexos erram, porque a confusão entre "o que a população acha" e "o que de fato aconteceu" é um dos erros de raciocínio mais recorrentes em qualquer cobertura de crise institucional, e um dos mais perigosos.

O que um número desses mede, e o que ele nunca vai medir

Pesquisa de opinião mede percepção. Não apura fato, não substitui investigação, não tem compromisso metodológico algum com o que realmente aconteceu nos bastidores de nenhum processo. Setenta e dois por cento de entrevistados achando que a imagem de alguém foi afetada é dado real sobre clima social, formado por exposição midiática intensa, repetição de manchete, viés de confirmação e uma dezena de outros fatores sem relação direta com o que os autos efetivamente provam. Quem usa esse número como veredito comete um erro de raciocínio básico, do tipo que qualquer curso introdutório de metodologia de pesquisa cobre já na primeira semana.

Só que descartar o número como irrelevante seria o erro oposto, e talvez o mais perigoso institucionalmente. Legitimidade de um tribunal não vive só de fundamentação jurídica tecnicamente impecável, vive também, e de forma nada desprezível, de confiança pública acumulada ao longo do tempo. Um STF que decide corretamente todos os seus casos, mas que perde a confiança de sete em cada dez brasileiros ao longo do caminho, sai desse período tecnicamente vitorioso e institucionalmente mais fraco. Essa é uma equação que nenhuma sentença bem fundamentada resolve sozinha, por mais irretocável que seja do ponto de vista estritamente jurídico.

O erro que cada lado comete, por motivos opostos

Para quem acompanha o caso torcendo contra alguma das partes envolvidas, a tentação é tratar o número da pesquisa como prova antecipada de culpa, um atalho emocionalmente satisfatório e tecnicamente vazio. Para as próprias instituições envolvidas, o erro simétrico é tratar desconfiança pública como ruído a ser ignorado até passar, uma aposta arriscada, porque confiança institucional, uma vez corroída de forma relevante, não volta ao normal só porque o processo terminou e ninguém foi condenado. Ela volta, quando volta, através de anos de decisão transparente, previsível e bem comunicada, não por decreto nem por paciência.

O dado que realmente deveria acender o alarme

O número que mais merece atenção institucional aqui não é, na minha leitura, o percentual específico sobre a imagem de Moraes. É o salto da Atlas/Estadão sobre a Corte como um todo: de 66,1% para 85,1% de brasileiros que acreditam em envolvimento de ministros em seis meses, com 58% hoje dizendo abertamente que não confiam no STF. Nenhuma das partes envolvidas na disputa processual em curso reverte esse tipo de erosão sozinha através de vitória pessoal no mérito. Só decisão bem fundamentada, comunicada com transparência e no tempo certo, devolve esse tipo de confiança. O relógio para isso já está correndo, independentemente de quem "ganhar" a briga interna que hoje domina o noticiário.

Referências

Fontes jornalísticas

Crédito da imagem: STF

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